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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 349 – junho 1991

Feminismo contemporâneo:

Teologia Feminista

 

Em síntese: A Teologia Feminista, cultivada na Europa e nos Estados Unidos, chega a reivindicar a extinção das diferenças de trato para mulheres e homens na sociedade, tecendo teorias sobre o andrógino primitivo para justificar suas teses. Algumas de suas protagonistas desejam ainda ficar dentro do Cristianismo, propugnando, porém, total revisão das concepções "machistas" da mensagem cristã e da estrutura eclesial. Outras querem emancipar-se totalmente do Cristianismo como sendo sistema de pensamento e vivência irrecuperável; aproximam-se das correntes de defesa da natureza ou ecológicas; constituem assim o que se chama "o Eco-Feminismo", com tendências panteístas.

É preciso observar, porém, que as diferenças entre masculino e feminino são indeléveis tanto no plano físico como no psicológico; Deus fez o homem e a mulher distintos um do outro, não para se digladiarem, mas para que se complementem mutuamente; cada gênero deve conservar sua identidade para o bem dos indivíduos e da sociedade, superando deformações de comportamento verificadas no passado ou ainda em nossos dias.

 

Na Europa e nos Estados Unidos tem-se difundido uma bibliografia que propugna uma Teologia Feminista (TF) ou, em alemão, Feministische Theologie. Procura, com argumentos filosóficos e psicológicos, remover o caráter "machista" e dominador das clássicas concepções do Cristianismo para poder atribuir à mulher um lugar condigno ou mesmo. . . extinguir as diferenças entre o homem e a mulher existentes na civilização de todos os tempos. O movimento assim oriundo tem-se espalhado, afirmando teorias totalmente inéditas, que revolucionam não somente a religião, mas também toda a cultura humana.

Eis por que apresentaremos, a seguir, o breve histórico dessa tendência e as suas principais concepções, às quais se acrescentará um comentário.

1. Teologia Feminista: conceito e origem

Como diz a própria expressão, a TF tem ligação com os Movimentos Feministas leigos de nossos dias. Estes apregoam não somente a igualdade de homem e mulher, mas até mesmo uma nova estruturação da sociedade. Segundo Catharina Halkes, as mulheres "emancipadas" até agora queriam ser a metade do bolo da sociedade, sendo os homens a outra metade; o Feminismo avançado, porém, afirma que se deve fazer um bolo totalmente novo. O adjetivo "Feminista" exprimiria o protesto contra a atual estrutura patriarcal da sociedade ou contra o domínio dos homens, que deverá ser removido por novo modelo de organização social.

Ora a Teologia Feminista transfere estas idéias para o setor religioso. Como fundamento e sinal do predomínio dos homens, aponta-se a própria imagem de Deus, que unilateralmente vem representado pelos símbolos masculinos do "Pai", do "Senhor", do "Rei". . . É preciso começar por libertar o conceito de Deus da sua masculinidade; somente então desaparecerá a "Igreja dos homens".

O feminismo leigo e a Teologia Feminista têm seu berço principal nos Estados Unidos. Foi aí decisivo o surto do marxismo radical sob a forma de "Movimento de Libertação da Mulher" ou Women's Lib em 1968. Segundo a mais conhecida pioneira desse Movimento, Kate Millett, a estrutura opressora da sociedade não provém do capitalismo, mas do papel de liderança do homem; o capitalismo seria apenas uma conseqüência do regime patriarcal, e não vice-versa; por conseguinte, para se obter o pleno desabrochamento da mulher, Kate Millett, seguindo Friedrich Engels, apregoa a extinção da família, pois esta é considerada o sustentáculo da sociedade patriarcal.

Ora as mais importantes teólogas feministas confessam ter sido fortemente influenciadas pelo pensamento marxista e procuram apoio político no socialismo. Vão, porém, mais longe do que o marxismo, que elas chegam a criticar, valendo-se sempre do esquema "opressores-oprimidas".

As idéias das feministas foram-se concatenando, de tal modo que se pode dizer que a data de nascimento da Teologia Feminina foi o ano de 1973, em que apareceu o livro Beyond God the Father, Towards a Philosophy of Women's Liberation([1]) (Boston 1973) de Mary Daly. Tal obra foi considerada clássica e sua autora tida como "a ama de leite" da Teologia Feminista. — Esta, entre outras coisas, tomou a si a bandeira da ordenação presbiteral de mulheres, principalmente nos Estados Unidos; não poucas Religiosas professas de Congregações diversas assumiram posição de destaque em toda essa movimentação.

Na década de 1970 a TF tomou pé na Europa. Muito significativo, para tanto, foi o Conselho Mundial das Igrejas,(1) como seu "Departamento para a Cooperação de Homens e Mulheres", que se reuniu em Berlim no ano de 1974 para dias de estudos sobre Sexismo; foi então que a Sra. Pauline Webb, membro do Comitê Central, propôs a seguinte definição de Sexismo:

 

"Por Sexismo entendemos todo tipo de subordinação ou menosprezo de uma pessoa ou de um grupo em virtude do sexo".

O Pastor Philip Potter, Secretário-Geral do Conselho Mundial das Igrejas, qualificou como demoníaca qualquer forma de prevalência do homem. Aliás, estas declarações do Conselho Mundial das Igrejas haviam sido preparadas pelo posicionamento do Conselho favorável à Teologia da Libertação desde 1968; esta e a Teologia Feminista têm pontos comuns: ambas se fixam em aspectos parciais; sim, a Teologia da Libertação se coloca no lugar dos pobres, geralmente identificados com o proletariado de Marx, ao passo que a Teologia Feminista adota a experiência feminista como diretriz da sua síntese teológica.

Em conseqüência, acontece que, na Teologia Feminista, a palavra "Teologia" tem significado particular e impróprio; já não é uma reflexão lógica e coerente sobre Deus, como na clássica Teologia, mas "um agir inventivo e improvisado, menos substancioso e mais ambíguo" (Dra. Catharina Halkes, Gott hat nicht nur starke Söhne. Deus não tem apenas filhos fortes, pp. 36.73). Por isto algumas representantes da TF preferem falar de Teo-fantasia a professar Teo-logia (discurso lógico a respeito de Deus).

Os círculos protestantes foram os primeiros a adotar a TF; transmitiram-na aos católicos especialmente através de duas mulheres convertidas do protestantismo ao Catolicismo: Christa Meves e Horst Bürkle. Em 1977 a Sra. Catharina Halkes conseguiu uma cátedra na Universidade Católica de Nimega (Holanda) para lecionar "Feminismo e Cristianismo". O Movimento se expandiu rapidamente, lançando livros, artigos e realizando Jornadas de Estudos periodicamente: apresenta atualmente matizes diversos, pois há teólogas feministas que querem permanecer dentro dos moldes do Cristianismo, como há algumas que abandonaram a fé cristã como sendo um dado patriarcal, do qual nada se salva; a demarcação entre uma e outra corrente é um tanto indistinta, como reconhece a teóloga Úrsula Krattiger: "Quem se tornou feminista, só pode viver na fronteira do mundo atual, onde já não é importante saber 'se ainda estou dentro' ou 'se já estou fora' ". Mary Daly já não calcula o tempo a partir do nascimento de Cristo como sendo "anos do Senhor", mas adota nova contagem: a dos "anos das mulheres". Essas teólogas se comprazem em afirmar que estão a caminho e não pretendem apresentar algum sistema teológico fechado; "aonde o caminho leva, elas mesmas não o sabem", conforme Úrsula Krattiger.

 

2. O Andrógino: ([2]) dado fundamental do Feminismo

Não se pode entender a TF se não se conhecem um pouco as idéias fundamentais do Feminismo contemporâneo. Procuremos, pois, esboçá-las.

O Feminismo tem afinidade com a corrente marxista, na qual Friedrich Engels propunha a tese de que na pré-história o regime era matriarcal; a mãe predominava. Só posteriormente as posições se inverteram em favor do regime patriarcal; no futuro deveria ocorrer plena equivalência do homem e da mulher, de modo que qualquer tipo de predomínio estaria abolido. A fim de consegui-lo, Engels apregoava a extinção da família, a mesma inserção do homem e da mulher no processo de trabalho, e a educação dos filhos por parte do Estado. Não haveria oposição a este projeto da parte da natureza humana, pois, segundo Marx, o homem é apenas o produto de relações sociais; é a educação, é o ambiente que forma o homem de maneiras muito variáveis.

Este modo de pensar foi ulteriormente elaborado pelo psicólogo Ernest Bornemann, que se pôs a serviço da fundamentação do Feminismo, como Karl Marx se pusera a serviço do proletariado. Julga que é preciso restaurar o pretenso regime matriarcal das origens, abolir a monogamia ea propriedade particular. A gravidez deverá ser assumida pela tecnologia, e as diferenças corporais entre o masculino e o feminino hão de ser reduzidas ao mínimo. À sociedade sem classes de Marx corresponderia a sociedade sem a bissexuali-dade: "Uma não pode ser atinginda sem a outra", escreve Bornemann.

O apagamento das características masculinas e femininas e a permuta dos papéis do homem e da mulher na sociedade vêm sendo mais e mais acentuados, de acordo com a proposição de Simone de Beauvoir: "Ninguém vem ao mundo como mulher, mas as pessoas tornam-se mulheres".

A extinção das diferenças entre homem e mulher deve realizar-se na educação dos filhos, no trabalho doméstico e nas áreas profissionais. Todo indivíduo deve realizar em si igualmente os predicados que até agora eram tidos como tipicamente masculinos e tipicamente femininos; o ideal é o andrógino!

Verdade é que a expressão "andrógino" é evitada por várias feministas. Por exemplo, Rosemary Ruether julga que tal palavra ainda admite indiretamente a existência do tipicamente masculino e do tipicamente feminino; melhor seria, segundo esta escritora, falar de "um todo psíquico" ou de "totalidade" (wholeness). — Outras feministas rejeitam o modelo do andrógino, porque dão nítida preferência às características femininas; estas seriam muito mais valiosas do que as masculinas. Herbert Marcuse, que as feministas muito citam, opõe o princípio feminino do sentimento ao princípio masculino do fazer ou produzir; os sentimentos femininos assim privilegiados seriam a receptividade, a sensibilidade, a não violência, a delicadeza.

 

Todas estas posições convergem entre si por rejeitarem a tese de que o homem e a mulher se devem complementar mutuamente. Cada tentativa de complementar ou de distinguir os dois pólos — o masculino e o feminino — redundaria inevitavelmente em fomentar o patriarcado. A aversão às notas sexuais que a natureza apresenta, traduz-se em luta contra a instituição da família e em favor do aborto.

O pensamento feminista progrediu ulteriormente, reivindicando para si uma cultura própria muito variada, com suas revistas, livrarias, clínicas, pensões, etc.

Mais: entre as feministas têm tomado vulto as lésbicas, a quem é atribuído papel importante no processo encetado, ocupando às vezes a frente dos movimentos feministas; um slogan norte-americano afirma que "o feminismo é a teoria e o lesbianismo é a prática". Embora a maioria das feministas não compartilhe esse modo de viver, consideram-no com certa complacência.

 

Também se deve registrar a afinidade do Feminismo com o Partido Verde. Está também muito próximo do movimento dito "Nova Era" (New Age), que tem sua mística e seu "profetismo"; uma das mensageiras de New Age — Fritjof Capra — louva o Feminismo como sendo a expressão mais autêntica da Nova Era.

Em suma, o Feminismo extremado vem a ser uma contracultura, com tendência a reestruturar toda a sociedade. Principalmente a rejeição do que existe, o caracteriza, sem que possa oferecer um substitutivo muito concreto. Assim é certo que repele como Sexismo qualquer diferenciação entre os sexos. Todo domínio de pessoa sobre pessoa deve desaparecer,. .. mas não se sabe bem em favor de quê. ..

 

3. Mary Daly, a mentora da TF

 

A mais conhecida e comentada teóloga feminista é a ex-freira Mary Daly, tida como luminar da nova corrente.

Começou a expor seu pensamento pouco depois do Concílio do Vaticano II no livro The Church and the Second Sex (A Igreja eo Segundo Sexo), New York 1968. Segue a orientação de Simone de Beauvoir e do existencialismo francês. Como sua mestra, ela também afirma que ninguém é mulher por nascença, mas as pessoas tornam-se mulheres. Será preciso, pois, renunciar ao conceito estático de natureza humana em prol de uma visão evolucionista do ser humano no mundo, visão apregoada por Teilhard de Chardin; não haveria uma imagem de homem ou de mulher oriunda do próprio Criador; por isto a realidade está sempre em evolução sem que se saiba por que etapas ainda há de passar; a própria biologia está sujeita à mudança dos tempos; é a sociedade "machista" que traça a imagem típica e definida da mulher; o que se pode afirmar, é apenas que a mulher quer ser independente e procurar de modo criativo a sua própria realização. A "mulher eterna" de Gertrud von Le Fort é um demônio, que tem de ser expulso ou exorcizado.

A visão evolutiva é aplicada também à Igreja, sujeita a constantes mudanças. Daly estima a encíclica "Pacem in Terris" e os documentos do Concílio do Vaticano II, dos quais ela deduz a extinção de todas as diferenças entre o homem e a mulher, sem levar em conta as passagens conciliares que mencionam as respectivas peculiaridades. Segundo Daly, o Concílio terá colocado o ponteiro da Igreja a zero hora para começar nova fase; mas Paulo VI atrasou o relógio.

A exegese bíblica da Sta. Daly é passional; joga São Paulo contra Jesus e São Paulo contra São Paulo; a devoção a Maria merece a sua condenação, pois propõe à mulher um ideal inatingível, que humilha a mulher.

Uma crítica pesada é por Daly dirigida à habitual concepção de Deus: a autora não aceita o conceito de um Deus todo-poderoso e imutável, criador de imutável ordem de coisas.

Anos mais tarde ou após 1973, Mary Daly publicou duas outras obras, em que rompe definitivamente com o Cristianismo; este lhe parece irreformável ou irremediavelmente errôneo; assim como não se pode traçar um triângulo quadrado, assim não se pode corrigir a linguagem do Cristianismo: "Se Deus é um Pai no seu céu e reina sobre o seu povo, é natural que a sociedade seja dominada pelos homens". O sexismo do Cristianismo revela-se também na imagem de Cristo, imagem masculina que exclui a mulher. A "Cristologia" repercute na devoção a Maria, a mulher sujeita a Cristo; o Cristianismo assim acorrentou a antiga deusa-mãe das mitologias.

O caráter machista do Cristianismo é ameaçador para o mundo, pois favorece o recurso à violência. Em conseqüência, Daly conclama todas as mulheres para realizarem a castração da linguagem e das imagens que exprimem a submissão da mulher; essa castração é um exorcismo e também uma forma de matar a Deus.

Daly não acredita mais num Deus pessoal, isto é, dotado de inteligência e amor; professa o panteísmo. A palavra "Deus" não seja tida como substantivo, mas como verbo, o verbo ser, no qual nós tomamos parte. Em conseqüência, aos seres humanos podem-se atribuir predicados divinos.

Mais: rejeitando a idéia de que homem e mulher se complementam mutuamente nos planos físico e psíquico, Daly é passional defensora do lesbianismo. As feministas unidas entre si em irmandade formam uma anti-Igreja.

Em 1978 Mary Daly deu mais um passo no seu itinerário filosófico, publicando o livro Gyn-Ecology.([3]) Nesta obra ela manifesta ódio a tudo o que é masculino; todos os nomes e pronomes masculinos são substituídos por femininos; escarnece a Cruz de Cristo como instrumento de tortura e contrapõe-lhe a feminina "Árvore da Vida". Adota o símbolo da aranha; como a aranha, as feministas têm o dever de cobrir o mundo inteiro com a sua teia e tender para o centro dessa teia, que tudo governa, e a partir do qual elas podem dizer: "Eu sou". Em lugar de oração, Daly fala da Teologia da Aranha ou da Caminhada da Aranha para o centro da sua teia ou para o centro do mundo.

Em 1984 Daly publicou mais um livro — Pure Lust (Puro Prazer) —, em que exalta o prazer como plenitude do ser e consumado poder!

4. Teologia Feminista: os principais pontos

As teólogas feministas confessam estar ainda elaborando o seu sistema teológico. Todavia alguns princípios sobressaem de suas obras. A seguir, apresentá-los-emos tais como se depreendem de três autoras que, à diferença de Mary Daly, tencionam ficar dentro dos quadros do Cristianismo: Cathari-na Halkes, Elisabeth Moltmann-Wendel e Rosemary R. Ruether.

 

4.1. Antropologia

Como se percebe, a TF é, mais do que outra coisa, uma antropologia relacionada com o Transcendental. A concepção básica é a do andrógino, que é tido como subjacente a todo indivíduo humano e que reúne em si o masculino e o feminino. A palavra androginia é evitada pelas teólogas feministas, que preferem falar de "totalidade" ou "conjunto." Halkes entende, por este vocábulo, a integração das polaridades (homem-mulher, espírito-corpo) numa unidade pessoal. Por conseguinte, rejeitam a fórmula: "O homem e a mulher têm o mesmo valor, mas de maneiras diferentes e complementares"; em vez de complementação mútua do homem e da mulher, pleiteiam a autonomia de cada indivíduo; a complementaridade, como quer que seja concebida, leva à subordinação da mulher. Qualquer hierarquização, qualquer relação de submissão é o próprio Mal. A diferença sexual (em que o masculino acaba predominando) é responsável por outras formas de subordinação ou hierarquização: homem superior à natureza, Deus mais perfeito do que as criaturas, dirigentes da sociedade e simples cidadãos... Subordinação significa depreciação. Por isto também as teólogas feministas rejeitam a distinção entre corpo material e alma espiritual, devendo aquele obedecer às aspirações desta. Espírito e matéria seriam apenas o interior e o exterior da realidade corpórea. Em conseqüência, não existe alma imortal ou imortalidade da alma. O controle do corpo e dos seus impulsos por parte da inteligência e da vontade é uma forma de violência.

Como dito, também é típico das teólogas feministas rejeitar o primado do raciocínio, que formula verdades perenes. Mais importante, para elas, é a experiência; esta gera a "Teo-fantasia", em lugar da "Teo-logia". A vida tem que ser reconhecida como ela é vivida, sem que se estabeleça uma dicotomia entre o espírito e seus ditames, de um lado, e os anseios das paixões e dos sentidos, de outro lado. Todo tipo de controle é vestígio de masculinidade ou de estrutura patriarcal; por isto tem que desaparecer.

4.2. Relacionamento com a "Natureza"

A Teologia Feminista interessa-se também pelo relacionamento com a natureza, cultivando o Eco-Feminismo. A depredação da natureza hoje verificada tem suas raízes em Gn 1,28, onde o Senhor entrega ao homem o domínio da terra; esta entrega ao dominador implica depreciação da terra. Por conseguinte, ponha-se de lado a idéia de que o homem é a coroa da criação; as criaturas irracionais que nos cercam, não são objetos, mas são sujeitos conosco; é preciso que nos sintamos solidários com nossa mãe, a Terra. Quem sabe que é parte do todo que é a natureza, já não aspira à imortalidade pessoal; o todo, o conjunto, e não o indivíduo, é que não tem fim; dele procede o homem e para ele volta.

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5. Reflexões críticas

5.1. A Antropologia da TF

1. A tese de que todo ser humano encerra em si aspectos masculinos e aspectos femininos pode valer-se da psicologia das profundidades de Carl Gustav Jung; este mestre ensina que todo indivíduo deve integrar em si valores do outro sexo: a mulher integra o animus e o homem a anima.

Todavia é certo que todo indivíduo, até as mínimas células do seu organismo, é marcado pela masculinidade ou pela feminilidade. As diferenças entre homem e mulher não são apenas evidentes no momento da propagação da espécie, mas vão muito mais a fundo; toda a realidade psicossomática de cada indivíduo é caracterizada por essa diferença fundamental. - O próprio Carl Gustav Jung (cujas idéias são discutidas por outros psicólogos) reconhece as diferenças sexuais do homem e da mulher e não pretende extinguir a identidade singular de cada sexo.

De resto, os psicólogos se comprazem em estudar as peculiaridades sexuais e mostram minúcias muito interessantes. Assim, segundo Philipp Lersch, o homem é caracterizado pela "excentricidade", simbolizada por uma linha que parte do íntimo do sujeito e se lança no mundo; ao contrário, a mulher é definida pela centralidade, simbolizada por uma linha circular que se vai recolhendo num ponto central. Esta centralidade faz que a mulher tenha mais facilidade para a apreensão dos conjuntos ou do todo e tente expandir seus talentos ao redor de si no mesmo plano, sem criar a pirâmide do poder.

Segundo o Cristianismo, o homem e a mulher não são apenas produtos transitórios da evolução cósmica, mas criaturas de Deus sábio, que quis o masculino e o feminino como tais: "Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; homem e mulher Ele os criou... Deus viu tudo o que tinha feito; era muito bom" (Gn 1,27.31). O homem e a mulher são imagem de Deus, desfrutando do mesmo valor, mas não da mesma maneira. Quem quer extinguir as diferenças do masculino e do feminino, extingue a própria natureza humana, que não é um neutro assexuado.

2. Um sinal da fragilidade dos princípios das teólogas feministas é a sua complacência para com o lesbianismo. Este significa a extinção da espécie humana; sem complementaridade sexual, não há futuro para a humanidade. A família, na qual o masculino e o feminino se encontram como tais num convívio enriquecedor para ambas as partes, não pode ser alijada sem prejuízo para a espécie humana. O homem precisa da mulher, e vice-versa; são as diferenças sexuais que provocam a atração mútua do homem e da mulher e ocasionam uma comunhão de interesses e valores, à diferença da autonomia andrógina, que se opõe à colaboração harmoniosa.

É na família que se exprimem por excelência a excentricidade do homem e a centralidade da mulher; esta, como mãe, é naturalmente voltada para os filhos e o lar, enquanto o homem procura fora de casa o sustento dos seus; o homem tende a ser a cabeça da família e a mulher o coração, embora estes papéis possam, na vida moderna, ser atenuados em favor de uma certa equiparação de tarefas. A propósito veja-se a Constituição Gaudium et Spes do Concílio do Vaticano II, §§ 48-51, onde é freqüentemente citada a encíclica Casti Connubii de Pio XI (1930).

3. A subordinação que São Paulo atribui à esposa frente ao marido (cf. Ef 5,21-33), corresponde uma subordinação do homem à mulher, pois é esta que educa e forma o homem, quando o tem nos seus braços e ao seu lado nos primeiros anos de vida. É o que lembra o Papa João Paulo II na sua Exortação Apostólica sobre a Dignidade da Mulher n° 18:

"O ser genitores - ainda que seja comum aos dois — realiza-se muito mais na mulher, especialmente no período pré-natal. É sobre a mulher que recai diretamente o peso deste comum gerar, que absorve literalmente as energias do seu corpo e da sua alma. É preciso, portanto, que o homem seja consciente de que contrai, neste seu comum ser genitores, um débito especial para com a mulher. Nenhum programa de paridade de direitos das mulheres e dos homens é válido, se não se tem presente isto de modo todo essencial...

A educação do filho, globalmente entendida, deveria conter em si a dúplice contribuição dos pais: a contribuição materna e a paterna. Todavia a materna é decisiva para as bases de uma nova personalidade humana".

4. De resto, subordinação não significa depreciação. Sem hierarquia, não pode haver sociedade; é o bom andamento mesmo da vida social que pede haja direção e governo promulgando leis justas; esta estrutura nada tem que ver com as diferenças entre masculino e feminino.

A afirmação paulina de que em Cristo não há homem nem mulher (cf. Gl 3,28), de ser entendida no respectivo contexto: o Apóstolo fala do Batismo e dos seus efeitos, que enriquecem com a graça de Deus o homem e a mulher indiferentemente. Aliás, o próprio Apóstolo incute a diferença de funções na sociedade e na Igreja, quando propõe a imagem de um corpo, cujos membros precisam uns dos outros, sem que possa haver menosprezo de algum (cf. 1Cor 12,12-27).

 

De resto, o poder da mulher na sociedade tem sido mais e mais exaltado na bibliografia dos últimos tempos. Com razão a mulher assume papéis sempre mais salientes na vida pública. Às vezes tem-se a impressão de que as feministas querem simplesmente copiar o modelo negativo do homem machista e dominador, como se inconscientemente estivessem sofrendo de um complexo de inferioridade.

5.  Além do mais, a TF cai em contradição quando, de um lado, apregoa a mansidão e os afetos da mulher como valores principais e, de outro lado, propugna o aborto: o seio materno torna-se assim campo de batalha e morte. Não se poderia conceber mais brutal dominação de um indivíduo sobre outro, dominação que precisamente a TF diz rejeitar. À mulher compete justamente segurar o braço do homem, cuja cabeça fria e calculista pode muitas vezes cometer desatinos, desatinos que só o coração da mulher autenticamente feminina consegue impedir.

6.  A orientação do corpo e de seus afetos por parte da alma não pode ser tida como atitude de violência. Caso não exista, o ser humano se torna escravo de suas paixões e caprichos irracionais. É a alma humana espiritual e imortal que configura a personalidade, imprimindo seus traços à respectiva corporeidade.

 

5.2. Relacionamento com a "Natureza"

A estima da natureza irracional não é bandeira específica dos ecologistas contemporâneos, mas é antigo patrimônio cristão. São Francisco de Assis (+1227) é, por exemplo, o grande cantor da beleza das criaturas que cercam o homem: "Irmão Sol, Irmã Lua, Mãe Terra. . ." são expressões suas.

O preceito, do Criador, de dominar a terra não implica deterioração ou destruição da natureza.

O mundo não é divino nem se identifica com a Divindade, como pretende o panteísmo. O culto da "Mãe-Terra" significaria o retorno à mitologia pagã.

 

A exaltação da natureza na TF acarreta uma degradação do ser humano, que Mary Daly coloca no mesmo plano que cães, gatos, vacas e tartarugas.

Em suma, o amor da TF pela natureza vem a ser a negação da identidade de cada criatura e a rejeição do plano do Criador. O homem — e cada indivíduo em particular — tem a vocação para comungar com a felicidade do próprio Deus Uno e Trino na vida futura; esta sua dignidade pessoal não pode ser reduzida a normas ecológicas.

As ponderações até aqui propostas evidenciam quão distante está a TF da doutrina cristã; o diálogo com as suas representantes é muito difícil porque há divergências básicas. A restauração do mito do andrógino (que as mais radicais representantes nem sequer aceitam) lembra a gnose dos séculos II/III.

Este artigo se apóia no trabalho do Prof. Manfred Hauke (Augsburgo), publicado em Fórum Katholische Theologie 1989 1/1, pp. 1-24, com o título: Zielbild: "Androgyn". Anliegen und Hintergründe feministischer Theologie.

 

Dom Estêvão Bettencourt



[1] Para além de Deus o Pai, Em direção de uma Filosofia de Libertação da Mulher.

Organização protestante e ortodoxa, não católica.

[2] Andrógino vem do grego: anér, andrós = homem; gyné, gynaíkos, mulher. Traduzir-se-ia por "homem-mulher".

[3] Neste título gyn  lembra gyné, mulher, em grego.


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